A presente publicação ‘Sentinelas do Oceano’, surge na sequência do Atlas das Aves Marinhas de Portugal (Meirinho et al. 2014), e constitui a sua atualização temática e metodológica, complementada com novos conteúdos. Esta obra compila a informação mais recente sobre a distribuição, abundância e estado ambiental das populações de aves marinhas que utilizam o território marítimo nacional, integrando dados obtidos através do seguimento individual com dispositivos eletrónicos (por exemplo, GPS), bem como séries temporais de monitorização de longo prazo.

O principal objetivo desta publicação é atualizar o conhecimento sobre as populações de aves marinhas em Portugal, avaliar o seu estado ambiental e identificar ameaças e prioridades de conservação à escala nacional. Para tal, são apresentados dados sobre a distribuição das áreas de reprodução, a abundância das populações reprodutoras e não reprodutoras, a produtividade das populações reprodutoras e as tendências populacionais observadas nas últimas décadas.

Os avanços tecnológicos registados nos últimos anos, nomeadamente no desenvolvimento de dispositivos de seguimento remoto permitiram um conhecimento sem precedentes sobre os movimentos, áreas de alimentação e utilização do espaço marinho por estas espécies. A crescente aplicação destas metodologias tornou oportuno reunir e sistematizar a informação disponível para as espécies que ocorrem em Portugal, assegurando uma base científica robusta para a sua conservação.

Enquanto predadores de topo, as aves marinhas refletem alterações nos ecossistemas marinhos e funcionam como indicadores do estado de conservação do oceano. Assim, a avaliação do estado das suas populações constitui um instrumento essencial para aferir a saúde ambiental do meio marinho. Neste trabalho foram compilados dados históricos e atuais de abundância das populações reprodutoras. Para algumas espécies, foi igualmente possível integrar informação sobre produtividade, permitindo analisar a evolução demográfica e prever tendências futuras. No que respeita às espécies não-reprodutoras, a longa série temporal de mais de 20 anos de embarques científicos para censos marinhos permitiu a avaliação das espécies que ocorrem na subárea do Continente da Zona Económica Exclusiva (ZEE) de Portugal. Complementarmente, as contagens anuais de aves costeiras invernantes realizadas desde 2009 ao longo da costa não estuarina, no âmbito do Projeto Arenaria, permitiram avaliar o estado ambiental das espécies costeiras mais comuns.

O ‘Sentinelas do Oceano’ inclui uma primeira parte com uma série de capítulos introdutórios dedicados ao estatuto das populações, à ecologia e evolução das aves marinhas, aos seus padrões de permanência e migração na ZEE portuguesa, bem como às principais ameaças que enfrentam. Seguem-se os capítulos metodológicos que descrevem detalhadamente as diferentes abordagens utilizadas, consoante a natureza e origem dos dados analisados. Finalmente, são apresentadas e discutidas as principais lacunas de conhecimento ainda existentes, principalmente relacionadas com a monitorização e a conservação destas espécies. São igualmente apontadas as prioridades estratégicas para o futuro, quer para colmatar essas lacunas, quer para antecipar ameaças emergentes, como o desenvolvimento de energias renováveis em meio marinho e os efeitos crescentes das alterações climáticas.

Numa segunda parte do trabalho, encontram-se os capítulos dedicados a 66 espécies que utilizam a componente marinha do território nacional. No total, são apresentados mais de 160 mapas de distribuição, organizados por período fenológico (reprodutor e não-reprodutor) e por região (Continente, Açores e Madeira), bem como 81 gráficos que sintetizam a avaliação do estado ambiental. Para cada espécie é ainda apresentado um enquadramento geral a nível global, incluindo informação sobre distribuição, movimentos, fenologia, abundância, tendências populacionais, ecologia, habitat, ameaças e medidas de conservação.

Portugal é um país com um vasto território marítimo cuja relevância ecológica é determinante à escala atlântica e europeia. Esta obra demonstra o papel fundamental que a ZEE portuguesa desempenha no ciclo de vida de numerosas espécies de aves marinhas. Tal relevância implica uma responsabilidade acrescida na promoção da conservação do meio marinho e dos valores naturais que dele dependem.

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